Blog do Nahum

New York, New York

De como fui de carona num cargueiro americano para Nova York, onde conheci gângsteres, políticos, estrelas e estrelinhas

Por Nahum Sirotsky*

Foi na viagem aos Estados Unidos que tive minha primeira lição de economia. Em 1945, viajar por avião era caríssimo, e não havia lugares. Tomei um cargueiro americano que levou 36 dias entre o Rio e Nova York. Parou em todos os portos no caminho. Conheci as principais cidades litorâneas do Brasil e várias do Caribe e do sul dos Estados Unidos, acompanhado dos marinheiros, todos jovens, todos veteranos da guerra. Foi uma farra. Aprendi palavras em inglês e outras coisas mais do que úteis.

 Onde encostávamos, a tripulação saía para passeios, cabarés baratos, visitas a concentrações de prostitutas. No Nordeste, elas eram quase todas quase meninas e recebiam os ‘gringos’ com o maior carinho e alegria: ‘Hey, Joe!, Me!, Me!, Look, me’, se ofereciam. Cada lado sabia umas poucas palavras na língua do outro, o bastante para se entenderem sobre o que desejavam trocar. Mas os homens recebiam-nos com ameaçadora irritação. Recordo de os marinheiros terem de correr em Salvador, Natal e Recife, para escapar da perseguição dos locais. Eram os primórdios do antiamericanismo. A passagem dos soldados e marinheiros americanos, a caminho da guerra na Europa, inflacionara o preço das meninas que se haviam habituado a receber em dólares. Ali, ao vivo, estava a prova prática da lei da oferta e da procura. (Lembro-me de ter escrito a respeito. Não sei se publicaram. Desde os meus primeiros momentos de jornalista, evito ler o que escrevo, pois sempre descubro que esqueci algo. E entro em depressão.)

Baixando em Nova York, e ajudado por um jovem oficial do navio, encontrei um apartamento no bairro de Flushing, a poucos minutos da primeira sede da ONU. Eu sonhava em chegar ao The New York Times. Tinha pressa de começar minha vida de correspondente estrangeiro que, por leitura (Hemingway e outros), imaginava seria romântica, cheia de aventuras. Foi.

 Tive um primeiro momento de dúvida e angústia no dia seguinte, ao ir pedir minhas credenciais para fazer a cobertura dos eventos na ONU. Fui recebido por uma linda loira que só falava o inglês. Depois das perguntas de praxe – nome, jornal etc –, ela indaga: ‘Em que língua você escreverá?’. Digo-lhe que, obviamente, em português. Ela não hesita um segundo: ‘Não posso lhe dar credenciais. O português – diz – não é uma das línguas oficiais da ONU, e não existe um só telegrafista que saiba escrevê-lo’. ‘Como é que mandaria as minhas reportagens, então?’ (Naqueles tempos, usava-se máquina de escrever, e o texto ia para o jornal por telégrafo. Não havia fax, computador, internet…) A loira não se deixou convencer de que o telegrafista só precisaria saber o alfabeto.

 Tive de procurar o subsecretário, creio, de Imprensa da ONU, que era um chileno. Esperei horas para ser atendido. Ele concordou em ir comigo até a moça. Ela insistiu que seria inútil: ninguém passaria meus textos. Ele deu uma ordem. Ela caiu no choro antes de obedecer. Era incrível como os americanos nada sabiam da geografia continental. Mexicano e brasileiro era tudo o mesmo. Num trabalho pessoal, delicadamente realizado, consegui, meses depois, que a loira passasse a gostar de brasileiros. Na volta ao Brasil, cheguei a receber carta endereçada a ‘Rio de Janeiro, Buenos Aires, Argentina, Brasil’.

O Itamaraty me dera passaporte especial, azul, semidiplomático. Não tinha, nem poderia ter direito a trabalho, o que ignorava… Estava em Nova York, meu Deus! Existiam e existem inúmeras cidades mais bonitas, mas nenhuma como Nova York, onde há de tudo e tudo acontece. Decidi que não perderia tempo em tentar aprender a ser o melhor jornalista possível e comecei a procurar um jornal que me concedesse um estágio.

Meu inglês era menos do que primário. Minha ignorância e ingenuidade eram incomensuráveis. Aí, lembrei do que acontecera em meus últimos tempos de Brasil. Perdera a última entrevista de Getúlio Vargas por irresistível necessidade de ir ao banheiro. Mas, graças a Antônio ‘Mulato’ Monteiro, meu companheiro em O Globo, conseguira fotografar os últimos momentos do ditador deposto no Rio. Com paciência e persistência, havíamos esperado à porta do palácio presidencial até a saída da caravana de carros de amigos e policiais que o levaram ao aeroporto Santos Dumont, de onde embarcou para o exílio em S. Borja. ‘Metemos o carro no meio dos outros. Os tiras não vão nem perceber’, insistira Mulato. Tivera razão.

Na entrada, fiz um sinal com os dedos. ‘Fique firme que vão pensar que somos da polícia’, previra Monteiro, acertando mais uma vez. Do carro, Monteiro tirava fotos. Só então se descobriu que não deveríamos estar ali. Vargas não tinha permissão de dizer mais coisa alguma, nem parecia com vontade de fazê-lo. Estávamos tão perto dele que facilmente, se fanáticos, poderíamos acertá-lo, apesar da presença de seus mais fiéis guarda-costas. Observando os policiais correndo em nossa direção, Getúlio soprara aos ouvidos de sua filha, Alzirinha, para que nos deixassem em paz. E assim O Globo publicara ‘fotos dos últimos instantes do ex-ditador no Rio de Janeiro’.

Esse episódio me leva a outra lembrança. Recordo que tive um certo receio quando vi os policiais que acompanhavam Getúlio correndo em nossa direção. (Perdoem o vai-e-vem: a vida não é uma linha reta nem a memória é seqüencial). Senti aquele frio do medo, o mesmo que sofrera em uma visita forçada ao casarão da rua da Relação, sede do Dops de Filinto Muller. Eles tinham então meios muito ‘refinados’ de obter informações. Guardo sinais de minha visita até hoje. E fora tudo, naquela vez, por confundirem Sikorski, nome do denunciado, com Sirotsky. ‘Liguem para o Alves Pinheiro (chefe de reportagem de O Globo) e ele confirmará que não somos o mesmo’, insisti. Um deles respondeu que ‘Sikorski e Sirotsky era tudo o mesmo’, e continuaram ‘conversando’ comigo. Doía demais, tanto que cheguei perto de concordar com eles só para suspenderem o monólogo.

Alguém acabou achando boa idéia perguntar ao Pinheiro, que, como segundo emprego, tinha o de assessor de imprensa da polícia. Naqueles tempos, quase todos os jornalistas tinham um segundo emprego, de forma geral, público. Era o jeito de sobreviver aos salários que se pagavam. ‘O Nahum não é Sikorski’, garantiu ele. E saí. A imprensa vivia sob rígida censura, imposta pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). E o feito estava feito, além do que, não teria como protestar. (Anos mais tarde, fizemos boa amizade, eu e o policial que me ‘acariciara’ e que havia se transformado em político.)

Mas voltando à minha estada em Nova York. Fui aos jornais de lá  com o que aprendera dos fotógrafos, como Monteiro, os irmãos Nestor e Indaiassu, inesquecíveis: cara e coragem. O pior que poderia acontecer era ser rejeitado. Mas me aceitaram no P.M., um tablóide intelectualizado, criado por um milionário de Chicago, Marshall Fields, que resolvera provar que um jornal poderia sobreviver sem anúncios. Durou poucos anos a experiência que lhe custou milhões de dólares. Mas foi um jornal sem igual até hoje. Na qualidade de seu texto e na beleza gráfica.

Eles me admitiram por saber português, espanhol e francês, línguas pouco faladas na Nova York daquele tempo. Acompanhava os repórteres nas incursões às Nações Unidas. Aprendi deles as técnicas de entrevistar. Lição primeira: estude ou se informe previamente sobre o tema que abordará e, quando possível, sobre quem vai entrevistar. Uma outra lição: comece a entrevista com perguntas de ordem geral para saber como penetrar a armadura do entrevistado que se preparou para dizer apenas o que deseja ver divulgado (políticos, empresários, diplomatas, todos tentam usar o jornalista para a consecução de seus objetivos, o que quase sempre conseguem, pois não admitimos voltar de mãos vazias ao jornal). Mais algumas: conquistar a confiança da fonte não publicando nem colocando em sua boca algo que não tenha dito, ou dito para não ser contado; não revelar fontes mesmo sob o risco de processo ou prisão. Também aprendi a escrever no estilo do lead, de dar a notícia logo nos primeiros parágrafos, pois se acreditava que jornalista poderia ser absolutamente objetivo, o que já foi esquecido. No Brasil, a gente começava a matéria falando de tudo menos do principal que, não raro, ficava para o fim. Era o chamado ‘nariz de cera’.

Logo depois me passaram adiante, para o tablóide New York Post, onde me destacaram para acompanhar os latino-americanos nas Nações Unidas. Conheci Henry Moscow com quem voltaria a me encontrar, anos depois, quando ambos trabalhávamos para a revista Visão. Naqueles dias, juro, quando se tratava de questões que não fossem do interesse direto do ditador do dia, delegados dos países menores completavam seu orçamento pessoal com presentes que recebiam para votar a favor disto ou daquilo. O mesmo se repetiria mais tarde, no período da chamada descolonização, quando delegados dos novos países, todos pobres, tinham de recorrer a meios criativos para sobreviver: venda de cigarros, bebidas e carros, que compravam livres de impostos.

Passei então para o New York Daily News, um tablóide popular que enfatiza histórias policiais, esportes, escândalos. A reportagem de polícia é a melhor escola de jornalismo que conheço. Aprende-se a duvidar, a investigar. Vivi meses na sala de imprensa da Central de Polícia. No New York Daily News havia a instrução de que, na falta da morte de alguém sofisticado, mulher que fosse assassinada seria, por definição, interessante, sexy. É preciso vender jornal.

Foi quando conheci Frank Costelo, o chefão máximo da Máfia na época, os irmãos Anastazia e outros figurões de uma cidade em que eles haviam corrompido boa parte da polícia. Mas era uma cidade relativamente segura, pois era possível namorar no Central Park ou nas margens dos rios sem receio de ser atacado. E se conhecia a história de Lucky Luciano (um mafioso extremamente cruel, um matador que explorava o lenocínio e a droga) que, exilado, determinara à Máfia siciliana que colaborasse com os americanos no seu desembarque na ilha dominada por tropas nazi-fascistas. Em Nova York, brincava-se com o fato de Luciano ter sido consultado na hora da escolha de novos prefeitos para substituir aqueles que haviam servido Mussolini.

Frank Costelo era especialmente inteligente. Tinha talento suficiente para administrar uma empresa como a Ford. Mas devia fidelidade à Máfia. O bairro italiano (Little Italy), em Manhattan, era absolutamente seguro. E ninguém ousava namorar garota italiana, cuja virgindade tinha-se de respeitar. Os gângsteres que conheci eram pais de família conservadores e puritanos. Mas tinham suas amiguinhas, as dolls (bonecas), que encontravam em apartamentos de grande luxo onde ofereciam festas fantásticas. Numa delas, a que compareci, vi importantes figuras da política e do judiciário nova-iorquino. A Máfia tinha grande influência no eleitorado. Mickey Cohen, um baixinho, dominava as famílias de Los Angeles. Seus pais moravam no Bronx ou no Brooklyn, em área de judeus, que ele vinha visitar, acompanhado de gigantescos guarda-costas; porém, nunca ia até a casa dos pais. Eu o vi com Virginia Hill – alta, corpo maravilhoso, linda, ela havia se relacionado também com Bugsie Siegel, o criador de Las Vegas.

Freqüentei o 21, a boate e restaurante da moda, cujo proprietário reservava o segundo andar para estrelas do cinema e do teatro, jornalistas famosos, colunistas, políticos. Os desconhecidos ficavam no térreo. Conheci estrelinhas e estrelas que se impressionavam com o fato de eu beijar as mãos delas ao ser apresentado. Conheci também Thomas Dewey, o governador que se elegera combatendo a Máfia e, mais tarde, tentaria a presidência da República.

Naquele tempo vi também Winston Churchill, o líder inglês, no seu regresso de uma palestra numa universidade do sul dos Estados Unidos, onde dissera que uma ‘cortina de ferro’ separava a União Soviética do mundo democrático. Pouco depois começaria a ‘Guerra Fria’, outra expressão cunhada por ele para definir o estado das relações de Moscou com o mundo livre. A história de seu confronto com manifestantes fica para uma outra vez, assim como os encontros com Gromyko, Molotov, Vishinki, Henry Wallace, Harry Truman e tantos e tantos outros de cujos encontros com jornalistas participei, ou a quem entrevistei pessoalmente. Foram os anos da minha formação.

*Texto publicado originalmente na edição nº 40 (fevereiro de 2000) da revista República (todos os direitos reservados)

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