Blog do Nahum

¿Dónde están las chicas?

Jânio Quadros adorava “palavras de domingo” e a ironia fina; Che Guevara preferia a piada escrachada e cheia de trejeitos

Por Nahum Sirotsky*

Já disse que escrevo em Israel, onde me encontro como correspondente de publicações brasileiras. Dependo exclusivamente da memória. E me desculpei, então, pois nem sempre consigo lembrar datas e locais exatos. Se errar, me corrijam. E, uma vez mais de acordo, avancemos.

Assim, recordo um almoço na praça do Teatro Municipal, em São Paulo. Terá sido na Mesbla ou no Mappin? Lembro-me do restaurante, da excelente comida e do também excelente ambiente, mas não tenho certeza de qual das duas lojas.

Estou sozinho quando entra um velho conhecido, Emílio Carlos, ex-radialista, ex-galã de radioteatro da BBC, em Londres, político que fazia suspirar as mulheres pela aparência e pelo refinamento. ‘Como vai?’, me pergunta. E eu lhe respondo: ‘Hoje é dia dos semitas? Um turco e um judeu?!’. Ele, claro, é de origem libanesa, mas, na intimidade, chamo-lhe de turco – o que nem sempre lhe agrada. Tenho, entre outros, o defeito da falta de sensibilidade. Árabes, libaneses, povos balcânicos, romenos etc foram povos dominados pelos turco-otomanos, cujo extenso império só fez inimigos. Lembro-me de um monumento a um de seus generais numa vila balcânica, da Iugoslávia. Era uma torre de esqueletos humanos, gente que ele havia mandado matar.

Mas não sou o único a cometer essa impropriedade. Os turcos do livro de Jorge Amado – A Descoberta da América pelos Turcos – eram todos libaneses, que marcaram as fronteiras com seus bazares e armarinhos. Eles são encontrados aonde só se chega por acidente ou como soldado.

Mas, voltando ao Emílio Carlos, convidei-o a sentar. Aí, papo para cá e papo para lá, ele me conta que tem poucas semanas para eleger um vereador e dias para escolher um substituto para o candidato da Vila Maria. Ao que recordo, o que fora lançado ofendia o clero e fazia rir a população. Seu nome seria Mineti. E seu slogan de campanha, criado por algum gênio, era que se deveria votar nele por ser bom. Foi o que me contou.

Como tinha grande imaginação, pode ser que não fosse a verdade. Então me disse que já tinha alguém: um professor de ginásio, muito popular, muito original. Um ator de primeira, me disse. E o professor apareceu. Fomos apresentados. Ele falava um português pausado, com muitas palavras de domingo, como se dizia naqueles tempos – palavras só encontráveis em dicionários. Era Jânio Quadros.

Jornalista se sente poderoso. Logo se torna íntimo. Ninguém é sagrado para ele. Jânio me chamava de senhor e eu, a ele, de você. Tinha absoluta confiança de ser eleito. E foi. Perdemos contato. Ele continuaria sua ascensão até chegar à Presidência da República. De quando em quando nos encontrávamos. Ele tinha forte amizade por um pequeno industrial paulista que sonhava grande. E sempre insistia que era essencial fazer uma limpeza na vida pública, ‘tão corrupta’.

Recordo um comício em Bauru, interior paulista, em que ele se confrontava com Adhemar de Barros numa campanha. Fui junto a convite de Emílio Carlos. Jânio, sempre que eu o encontrava, estava vestido com simples e discreta elegância. No comício, usava um casaco de tropical preto com manchas de gordura.

Antes de subir ao palanque, com barba de dois dias, recebia parte de um sanduíche de Emílio e um pouco de pó-de-arroz, que lançava sobre o casaco. E começava o comício dizendo: ‘Paulistas, desculpem se como alguma coisa enquanto falo. Estou o dia inteiro em campanha e nunca sobra tempo para nada’.

E fazia seu discurso manipulando o povo à vontade. Ora riam, ora reagiam com raiva. Jânio parecia um maestro. Não muito distante, Adhemar tinha seu comício na mesma hora. Havia mais gente com Jânio. Não se podia resistir ao que dizia. Dali saímos para um hotel onde haviam preparado um banquete com variedade de bebidas e um quarto mais do que confortável. Ele nunca se barbeava – usava uma tesoura. Era ator para qualquer tipo de papel. Como sabem, chegou a presidente, cargo do qual se demitiria, primeiro e último caso na história brasileira.

Durante a campanha presidencial, ele toca para a minha casa. ‘Nahum…’ e vai logo perguntando: ‘Estou pensando em dar um pulo em Cuba, visitar Fidel Castro. O que acha?’. Respondo que ele sabe bem que os americanos não gostam do homem – muito menos os militares brasileiros. Pode ser problema para ele. ‘Não importa, vou. Vale muitos votos.’ E foi. E ganhou as eleições com o símbolo da vassoura, outra invenção de Emílio Carlos, que sabia montar espetáculos.

Jânio ganhou porque o povo estava cansado do divórcio entre a promessa dos políticos e o que faziam quando eleitos. Os eleitores acreditaram que ele acabaria com a tradicional corrupção do poder no Brasil. A situação, porém, não mudou muito. Até traficantes tivemos em governos estaduais.

Tive inúmeros encontros informais com Jânio. E é uma tristeza muito grande ele não ter tido as condições de ser o presidente que poderia ter sido. Eu dirigia o Diário da Noite, no Rio de Janeiro. Chateaubriand, um dos maiores homens de imprensa que conheci e, com todos os seus defeitos, um dos grandes brasileiros da história, cismara que eu poderia salvar aquele seu jornal. Me tirara de diretor da revista Visão para me pagar o mais alto salário do jornalismo. Muito dinheiro mesmo.

O jornal tinha duas edições. O dr. Assis, como o chamávamos de frente – Chatô, pelas suas costas –, insistia que homem não precisa dormir. Ele chamava sua gente a qualquer hora do dia ou da noite. Lembro da noite em que me tirou de um sono pesado. ‘Tá dormindo, meu filho? Pois venha já até a Casa de Pedra’, a casa em que vivia na avenida Atlântica. ‘Vamos acordar o Alkmin e salvar o Brasil’, disse referindo-se a José Maria Alkmin, então ministro da Fazenda do presidente Juscelino Kubtischek.

Ordem de Chatô se obedecia. Lá fui eu para a Casa de Pedra, onde ele me mostrou um saco e disse que aquele levaria eu, ele, o outro. Eram sacos de sementes que davam um ótimo óleo (esqueci o nome). Para o dr. Assis, tratava-se de óleo para tomar lugar do petróleo, que importávamos a preço de ouro. Alkmin nos recebeu com um sorriso. Mais tarde, seriam parentes pelo casamento da filha de Chatô com o filho do ministro da Fazenda. E o Brasil não foi salvo.

Muitos são os fatos pitorescos de que me lembro. O comentarista internacional do Diário da Noite era Barreto Leite Filho, outro dos maiores profissionais da imprensa brasileira – e hoje esquecido. País sem história não tem como ir adiante.

Madrugada, toca o telefone na redação. Alguém atende e grita: ‘Barreto, tem um louco aqui dizendo que é o Jânio e quer lhe falar’. Barreto não era homem de muita paciência. Pega o telefone e vai dizendo: ‘Seu filho da p…, pregar trote a esta hora!!!’. Bate o telefone e volta para seus papéis. Telefone novamente: ‘Dr. Barreto, aqui é o Jânio mesmo. Preciso lhe falar’. Barreto novamente desliga com um palavrão mais grosso ainda. Volta a tocar o telefone: ‘Dr. Barreto, quero lhe oferecer a embaixada em Israel’. Barreto desliga mais uma vez. Na manhã seguinte, chega mensagem de Brasília confirmando tudo.

Jânio encontrara Barreto na Europa – Itália, ao que lembro. Tinham falado por horas e bebido por horas. Barreto era um copo, e Jânio, outro. O presidente não esquecera que Barreto impressionara pelos seus conhecimentos do Oriente Médio. Ele nomearia Rubem Braga embaixador e, antes de fazer o mesmo com Millôr Fernandes, deixou a Presidência. Ele já designara Roberto Campos para Washington, nomeação que Jango (João Goulart) homologaria.

Um dia Jânio toca para a minha casa para dizer que Fidel e Che Guevara passariam pelo Brasil na volta de uma conferência interamericana no Uruguai. Seriam por ele condecorados. Era plena Guerra Fria. Os americanos não perdoavam Fidel por ter passado para o lado russo. ‘Presidente, é desafiar os americanos e as Forças Armadas’, digo. E ele: ‘Sou o presidente da República’. Foi quando tive rápido contato com os dois amigos: Fidel e Che.

Pouco depois, me reencontraria com Che na Primeira Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), em Genebra, em 1964. O argentino me viu, e eu sorri para ele. Ele sorriu de volta. Foi uma conversa muito breve, em que lembrei que havíamos nos encontrado no Brasil. Ele respondeu, como bom político, que se lembrava. Naquele momento, me achei importante. Mas, pensando bem, acho que foi um gesto de delicadeza. Ele era simples, simpático, agradável. Alguém interessante de quem se gostaria de ser amigo.

Naqueles dias de João Goulart no poder, se podia apertar a mão de gente como ele sem riscos. Pouco depois, aconteceria o 1º de abril, a revolução. E passaria a ser perigoso. Quem falava com comunista era comunista. Regra simples. Dias em que bastava ser nacionalista e a favor do petróleo brasileiro para ser considerado suspeito.

Mas voltemos à conferência do UNCTAD. Eu era membro da delegação do Brasil, junto ao Ministério do Exterior (Itamaraty), casa onde tinha minhas melhores e mais bem informadas fontes. Gente como Edmundo Barbosa e Roberto Campos, que me haviam obrigado a estudar. Ou como João Neves, que fora meu padrinho de casamento e sempre me favorecera, levando-me a conferências internacionais e me ajudando a fazer nome.

Che era um gozador com incrível senso de humor. Todos o procuravam – queriam conhecê-lo. Não dava para prever que cometeria a burrice de tentar uma guerrilha revolucionária na Bolívia, onde seria traído e assassinado em 1967. Sua principal vítima naquele encontro era o delegado português. Vivia-se a ditadura de Salazar em Portugal. O diplomata lusitano defendia as colônias, alegando que, graças a Portugal, estavam progredindo – o mito da missão civilizadora do branco, inventada pelos colonizadores. Sempre que o português se preparava para tomar a palavra, Che comparecia para interrompê-lo e gozá-lo. Dava pena. Bastava Che subir à tribuna para o português se retirar com todos os seus assistentes e assessores. Na hora em que saía, Che fazia uma piada ou um comentário jocoso.

Não se podia evitar o riso. Ria-se do delegado salazarista. Che, contador de piadas nas quais imitava os personagens, divertia-se, e a todos, copiando o andar digno do diplomata português e até seu sotaque.

Foi durante essa conferência que o governo israelense me ofereceu a oportunidade de visitar o país pela primeira vez. Che fica sabendo que me vou e, ao me encontrar, diz que quer me dar algo de precioso. Ele fuma sempre, apesar de uma asma dolorosa. Tira do bolso um charuto, dos mais caros, e me oferece. Surpreendido, e de reações tardias, digo-lhe que não fumo charuto. E ele responde: ‘Leve-o, pois é das poucas coisas que a revolução de Castro não estragou’. E acende o seu. Nos despedimos. Foi a última vez que o vi.

Antes que se vá, porém, tenho a audácia de lembrar nosso encontro no Brasil. Cinco minutos depois das apresentações dos dois heróis cubanos – o barbado Castro e o barbicha Che, pois tinha mesmo pouca barba –, o argentino me pergunta (creio que foi o argentino, a não ser que minha memória me esteja traindo): ‘Diga, tchê, ¿dónde están las chicas?’. Ou terá sido ‘¿dónde están las mulatas?’.

*Texto publicado originalmente na edição nº 48 (outubro de 2000) da revista República (todos os direitos reservados)

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