Blog do Nahum

Conversas sobre as guerras que vi

Como jornalista e como adido da embaixada brasileira em Tel Aviv, assisti ao nascimento de Israel e até sofri assédio sexual

Por Nahum Sirotsky*

As memórias de um repórter são como um papo à mesa do café, lembranças do que viu ou viveu no exercício da profissão. A ordem cronológica não importa… É como procuro narrar aspectos curiosos de minha vida. Como se estivesse conversando.

E, como agora se fala muito de Israel e da Palestina, comecei a me lembrar de histórias sobre a questão judaica, o renascimento de Israel e de outras mais. Recordei-me de Oswaldo Aranha, gauchão simpático e valente, culto e sofisticado, sedutor e democrata convicto. Ele fora fundamental na vitória da Revolução de 1930 e na ascensão de Getúlio Vargas ao poder – com quem rompera por ter Getúlio declarado o Estado Novo, assumido poderes totalitários e se inclinado à ideologia fascista.

Graças a Aranha é que o Brasil se tornara aliado dos países ocidentais e lutara na Itália contra as tropas de Hitler e Mussolini. Ele simpatizara comigo, o garoto-repórter, talvez por eu ser judeu. Não me lembro do dia nem da cidade, se no Brasil ou nos Estados Unidos. Não tenho arquivos. Mas me recordo de ter-lhe perguntado por que o Brasil, vitorioso ao lado das forças democráticas, resistia a conceder visto de entrada a judeus.
Aranha lembrou a conferência convocada por Franklin Roosevelt, o grande presidente americano, para Evian, na Suíça, em julho de 1938, cujo objetivo era salvar os judeus alemães ameaçados por Hitler. Todos os países concordaram em que algo deveria ser feito. Mas cada um tinha sua desculpa para nada fazer, a começar pelos americanos. Eram ainda os dias do mais profundo e generalizado anti-semitismo. Os judeus que puderam fugiram da Alemanha até para Xangai, na China.

Na época da conferência, Oswaldo Aranha era ministro de Vargas, e o Brasil também tinha rejeitado os judeus. Ele me disse que não esquecia isso. E que um dia, não tinha dúvidas, prestaria ao povo judeu um serviço que tornaria menos pesada essa lembrança.

Em 1947, Aranha foi feito chefe da delegação brasileira nas Nações Unidas e iniciava a tradição de um brasileiro abrir a Assembléia Geral, como até hoje. Era sua oportunidade. Aranha presidia a Pequena Assembléia, como ficou conhecida, que decidiria sobre a partilha do que sobrara da antiga Palestina.

Desde o início, árabes e judeus não se entenderam. Lutavam. E os ingleses, que tinham o poder sobre a Terra Sagrada, cansaram-se de se envolver nos embates entre eles. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, deixaram a questão para as Nações Unidas, que enviaram à região uma comissão de diplomatas. A saída, segundo eles, era dividi-la em dois países, um árabe e outro judeu. Os judeus aceitaram; os árabes não…

A assembléia da ONU, presidida por Aranha, teria de decidir. Os árabes manobraram para o adiamento da decisão, o que seria o fim do sonho judeu de uma terra própria. Aranha manobrou para que a proposta fosse votada. Os árabes protestaram. Ahmed Shukeiri, representando a Arábia Saudita, queria novas consultas. Aranha chamou-lhe a atenção: ‘A reunião foi convocada para que votássemos. Pois votemos’. O resultado: 33 a favor, 13 contra, 10 abstenções. O Brasil se absteve. Mas o gaúcho garantiu que a votação acontecesse (há várias ruas em Israel com o nome de Oswaldo Aranha) e deu aos israelenses a chance de ter seu Estado.

Jamal Husseini, a principal figura árabe na reunião, ameaçou: ‘A partilha será impedida a ferro e fogo’. Os judeus proclamaram o Estado de Israel e, poucas horas mais tarde, foram invadidos por tropas árabes. Era 1948. Eles ganharam sua primeira guerra. Em 1956, houve a segunda. Em 1967, a terceira. Então, mais dois embates, em 1973 e 1982. Nesse último, o Líbano foi invadido.

Minha mulher, a atriz e escritora Beyla Genauer, e meu filho visitavam Israel em 1956 e testemunharam a segunda guerra. Mas dela nada falo, porque não a vivi. Minha primeira visita a Israel se deu em 1961. Percorri o país por inteiro. Em Jerusalém, cheguei a uma passagem entre a cidade moderna dos judeus e a que estava sob soberania da Jordânia, a Jerusalém oriental – onde estão todos os lugares santos. Eu teria de atravessar o Portão de Mandelbaum para ir ao outro lado. Garantiram-me que eu não passaria. Não acreditei que negassem o visto a um brasileiro. Negaram.

Aí, fui ter com o diplomata que representava os interesses da Jordânia na cidade. Ele olhou o passaporte: ‘Ué! Não diz a religião!’. Explico que é a lei brasileira. Ele coloca a mão na minha perna e começa a subi-la. ‘Se você declarar que não tem religião, lhe dou um visto.’ Explico que, no Brasil, nunca escondi minha religião e que não o farei em lugar nenhum. Ele continua subindo a mão: ‘Mas ninguém saberá de nada…’. Pego sua mão, muito bem manicurada e perfumada, e a devolvo: ‘Então irei à Cidade Santa em outra oportunidade’. Ele volta a pôr a mão na minha perna e afirma: ‘Ela nunca mais será judia’. Despedi-me.

Naqueles tempos, os judeus rezavam na Jerusalém moderna, virados para a colina do Templo e o Muro das Lamentações, dos quais estavam separados pela fronteira e pela tropa beduína do rei Hussein.

As pessoas que me foram apresentadas – Shimon Peres, Moshe Dayan, Arik Sharon, Yigal Alon, Abba Eban e muitos outros – afirmavam que uma nova guerra era questão de tempo. No kibutz de brasileiros, Bror Chail, moças e rapazes faziam a guarda à noite. Eram comuns as invasões de assaltantes vindos da Faixa de Gaza.

Em 1967, voltei a Tel Aviv como adido à embaixada (adido de tudo). Éramos o embaixador, eu e alguns funcionários responsáveis pela burocracia. Eu era de uma ‘ignorância enciclopédica’. Então comprei a coleção completa dos dicionários da Penguin. Sempre que saía em missão, memorizava umas poucas palavras específicas para impressionar os doutores. Tornei-me um ‘ignorante sabe-tudo’.

O país, menor que Sergipe, tinha características surpreendentes – que o embaixador precisava comunicar ao Itamaraty. A água era pouca. Os israelenses trabalhavam para transformar em terra cultivável uma vasta extensão quase desértica.

O kibutz Bror Chail ficava à entrada do deserto do Negev, que toma dois terços do país. Os meninos e as meninas, com suas origens citadinas, trabalhavam como mouros, mas já se começava a mecanizar tudo. Tinham vacas leiteiras que produziam 20 litros diários, em média. As culturas eram irrigadas, e à noite os encanamentos eram guardados em depósitos, pois do contrário seriam roubados pelos infiltradores de Gaza.

Garotos e garotas viviam em um modelo meio espartano, meio ateniense, por assim dizer. Os meninos serviam três anos obrigatoriamente; as meninas, dois. O refeitório, assim como a lavanderia, era comum. As crianças ficavam em casas, divididas por faixa etária. As casas, aliás, eram localizadas no centro, para facilitar a defesa. As escolas eram do mais alto nível. Em Tel Aviv existiam, então, uns 250 pontos de venda de livros. E, como os trabalhadores não tinham nem dinheiro nem tempo para ir à cidade, a cidade ia até eles. Já naqueles dias, o país tinha vários grupos de teatro subsidiados, como o Habima e o Cameri, de Tel Aviv.

Os espetáculos viajavam pelo país, de kibutz em kibutz, de acampamento militar em acampamento militar. O mesmo ocorria com o balé clássico, o moderno, os cantores populares. Israel tinha um centro de pesquisas, o Instituto Weizman, com renome internacional, e hospitais modernos funcionando em barracas. Os serviços médicos, gratuitos, eram iguais para todos. As universidades atraíam estudantes de todo o mundo.

Uma de minhas funções era ir aos kibutzim fazer palestras sobre o Brasil. Viajar sozinho à noite era perigoso. A distância entre o mar e a fronteira era de, no máximo, 14 quilômetros. Uma noite, quando seguia para um kibutz, fui parado por um soldado que não percebeu a chapa branca do carro.

Desculpou-se em seguida e me perguntou se tinha visto para a Jordânia. Era um chiste, evidentemente – ele me havia parado a poucos metros da fronteira vigiada por beduínos do rei Hussein.

Acontecimentos desse tipo foram inúmeros. Houve o caso do senador nordestino que, em 1967, disse ao embaixador que sonhava ver ‘uma guerrinha’. O embaixador não se conteve: ‘Fale com o Nahum, que ele dá um jeito’.

Não vou citar o nome do senador, apenas deixarei escapar que era do Rio Grande do Norte. Nos dias seguintes, levei-o a passear pelo país. Chegamos ao lago da Galiléia e nos sentamos no terraço de um hotel, de onde se podiam ver as colinas de Golã – na época, em poder dos sírios. O senador pediu uma bebida típica, no caso, um suco de laranja. Estamos bebendo nosso suco quando vejo, vindos do Golã, 11 aviões Mig (fornecidos pelos soviéticos aos sírios).

Bem ali, na nossa frente, começa uma batalha aérea entre os Mirages israelenses e os Migs sírios. O senador me olha, solta aquele palavrão. Vemos os sírios ser derrubados e, depois, os israelenses balançar as asas de suas aeronaves, em sinal de vitória, e regressar à base. O senador vira para mim e diz: ‘P… que p…, que prestígio!’. De volta ao Brasil, tratou de espalhar a história. A partir daquele dia, todo político que desembarcava em Israel passou a me pedir o mesmo ‘tratamento’.

Pouco depois, ouvíamos que Nasser, presidente egípcio, exigia das Nações Unidas a retirada da tropa internacional, que incluía brasileiros, estacionada em Gaza. Assim foi feito. Nasser fechou então a passagem de Israel para o mar Vermelho, num ato de guerra. Durante semanas, as Nações Unidas e seus membros discutiram o que fazer. Por ordem do embaixador, todos os dias pegávamos nosso carro e íamos até a fronteira para ver o que faziam os egípcios.

De uma hora para outra, já não se viam nas ruas homens entre 18 e 50 anos. Velhos, mulheres e crianças assumiam os serviços públicos – limpeza de ruas, recolhimento de lixo, entrega de cartas. Certa manhã, ouvem-se as sirenes. A guerra começara. Corremos aos abrigos (todas as casas do país têm o seu). Nos meios diplomáticos, comentava-se que os árabes iriam vencer, invadir as cidades e massacrar as populações.

Do abrigo, ouve-se um barulho infernal. Um obus lançado por um canhão jordaniano chegara a Tel Aviv e destruíra residências. Informantes do governo egípcio nos dizem que a guerra está ganha. Em uma conversa telefônica, Nasser fala a Hussein sobre a ‘grande vitória egípcia’.

A guerra havia sido ganha em poucas horas, mas pelos israelenses, que, em um ataque aéreo maciço, aniquilaram toda a força aérea egípcia – e parte da jordaniana – ainda no solo. Os israelenses seguiram então para o canal de Suez e tomaram o deserto do Sinai.

Tem início a Operação Jerusalém. Diplomatas das nações cristãs, informados do avanço de Israel para a Cidade Santa, previnem o ministro do Exterior israelense, Abba Eban, sobre quaisquer prejuízos aos lugares santos cristãos. A batalha de Jerusalém é quase de rua em rua e de casa em casa – com armas pequenas e muito corpo-a-corpo. O país inteiro aguarda o fim do combate. Dois mil anos antes, legiões romanas de Tito tinham entrado em Jerusalém, destruído a cidade, escravizado uma parte da população e matado a outra. Em todas as preces judias, durante esses 2 mil anos, se pronunciavam as palavras Jerusalém e paz. Desde essa época, em todos os dias do ano e em todas as datas religiosas, se falava do retorno à Cidade Santa.

Toca o telefone: ‘Nahum, arranje hotel em Jerusalém moderna e espere lá’. É o que fazemos, eu, minha mulher, meu filho e um sobrinho. É madrugada e se ouvem, por toda a cidade, os gritos de alegria da população. Os pára-quedistas de Israel tomaram a colina do Templo. Os judeus entraram em Jerusalém.

Chegamos ao Muro das Lamentações, ainda sujo, com evidências do lixo que sobre ele acumulavam os habitantes da cidade. Em meio às orações, todos choram descontroladamente. Dois mil anos de orações por um muro de umas poucas pedras! ‘Você não entende. A tradição diz que as preces feitas junto ao Muro vão direto aos ouvidos de Deus’, explica-me um velho rabino. Ele me diz também que só há outro lugar assim na Terra: o túmulo de Abraão, em Hebron.

Horas depois, Israel informa que tomou Hebron, onde também estão os túmulos de Isaac, Jacó, Sara e Rebeca. E que conquistou também a Cisjordânia, que vai de Jerusalém até a fronteira com a Jordânia, marcada pelo rio Jordão. O Golã também foi tomado. O Egito ainda tentaria recuperar o Sinai em 1973, na Batalha do Yom Kippur, quando seria mais uma vez derrotado. O país só viria a ter o Sinai de volta com um acordo de paz assinado com Israel em 1978. Nas últimas semanas, árabes e judeus falaram muito sobre a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém oriental e o Golã. A guerra de 1967 é que tornou possível tentar o entendimento entre Israel e seus vizinhos.

*Texto publicado originalmente na edição nº 46 (agosto de 2000) da revista República (todos os direitos reservados)

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